terça-feira, 17 de novembro de 2009

CAPÍTULO 01

   A High School era uma escola de tradição americana, com tudo que as escolas americanas tem direito: jornal, baile de formatura, líderes de torcida, time de basquete... Até a carga horária era igual, o que fazia de suas vidas um pouco diferente da dos outros.
   Man era editora do jornal, o Target; Re era chefe das líderes de torcida; Jô era a melhor jogadora de vôlei que a High School já teve; e Teka participava do grupo de teatro.
   A primeira segunda-feira de maio  amanheceu ensolarada, mas o tempo começava a esfriar. O sol já estava a meio caminho do seu ponto máximo quando o “quarteto fantástico” se encontrou na porta do colégio.
   - Bom diaaa!!! - disse a menina loira guardando as chaves do carro na bolsa Prada- E ai meninas? Como foram de final de semana? Quero saber de todas as fofocas, já que passei o sábado e domingo com o Vitor e não vi vocês....
   - Ihhh... Pra ela estar assim toda falante, aposto que ela está com sono. O que você ficou fazendo durante a noite, enh?!?!– comentou Man para as meninas e se voltando para a amiga que a olhava com a cara de mais inocente do mundo, – Bom dia Re.
   - Vocês não vão acreditar como foi o meu sábado...
   - Olha ai as fofocas...
   - Começou! Fala Teka.
   - Fui na inauguração daquela balada, como é mesmo o nome? (Aff...) Não importa...  Não, não, não... - piscando os olhos de cílios com rímel incolor furiosamente, ela apressou-se em dizer - Vocês não sabem com quem eu fui para lá?!?! 
   As meninas entreolharam-se já esperando para ouvir qual seria o absurdo mais recente de Teka, mas antes que alguém pudesse arriscar, Rafa, namorado de Man, chegou com seus cachos caindo sobre os olhos altamente fofos, assim como inoportunos.
   - Bom dia meninas! Tudo bom?
   - Oi Rafa.
   - Bom dia.
   - Tudo e você?  
   - Oi amo... - Ele já lhe lascara um beijo na boca.
   - Bom, depois eu conto quem eu encontrei... – disse Teka impaciente indo em direção ao portão de entrada, batendo seus saltos, falando com ninguém em particular.
   Os cinco foram entrando pelos coloridos corredores e como de costume, todos os olhares se dirigiram para o grupinho mais cool da cidade. Nascidas nas famílias nobres, as quatro garotas eram o tópico de fofocas preferido de todos, e não só entre aquelas paredes; eram sempre elas que eram chamadas para as festas mais legais, com as pessoas mais famosas; eram elas que ganhavam roupas das lojas mais exclusivas; eram elas que todos queriam como namoradas e quem todas as outras meras mortais gostariam de ser. Mas mais que isso, o que as tornavam irresistivelmente famosas, era o fato de não darem a mínima para tudo aquilo.
   Pararam em frente a seus respectivos armários, e começaram sua seção diária de preparação. Por fora, eram idênticos, mas era por dentro que havia toda diferença: Teka estacionava - para não usar termo melhor - em frente ao espelinho colado na aba de dentro da porta e dedicava os cinco primeiros minutos a ficar se olhando ali - o que ninguém sabia, era que na verdade ela ficava espiando os caras gatos que passavam pelo corredor olharem discaradamente para sua bunda -, depois, entre uma pilha de papeis amassados, ela pegava o roteiro de sua peça, dava a última retocada no cabelo perfeito e naturalmente liso que era o sonho de qualquer menina que ficava dez horas seguidas no cabelereiro, batia a porta branca com força e se encostava ali, como quem não quer nada, para apreciar o movimento ("a oferta", como lhe dissera Re, há algum tempo atrás). O que Amanda fazia assim que destrancava seu armário verde, era dar um beijo em seu colar com a Estrela de Davi que ficava pendurado na porta e depois, só ler sua tabela de tarefas colada ao fundo: ela continha tudo o que ela teria de fazer no dia, desde as matérias que teriam de ser revisadas para o jornal, até a hora que deveria chegar na casa de seu namorado para o jantar (" Ei Amandinha, disse Jô um dia desses apontando por cima da cabeça da amiga para uma quarta-feira qualquer em seu horário, você não esqueceu de marcar a hora de cagar hoje, não?!" Amanda fechou a porta tão violentamente que prendeu o dedo de Jô, mas assim que a amiga gritou de dor, ela começou a abraçá-la e dizer " Ai amiga, desculpa, desculpa, desculpa". Nenhuma delas jamais conseguira deixar Man brava por mais de um minuto). Jô era a que menos se demorava; ela não dava muito importância para sua aparência, a não ser para os cabelos, que a cada dia que passava ficava mais claro devido as luzes que fazia sozinha em sua casa; ela pegou sua revista de horóscopo e leu a previsão de seu signo para o dia; deu um tapinha carinhoso no seu Santo Antonio que estava de ponta cabeça amarrado num cadarço (uma simpatia para arranjar namorado), pegou uma barrinha integral de cereal, e fechou a porta vermelha do seu armário. Renata era a que mais tinha coisas guardadas dentro do seu armário roxo; antes de abri-lo, amarrava o cabelo nom coque mal feito em cima da cabeça; havia um diversidade absurda de chocolates ali, e naquela manhã ela optou por Língua de Gato da Kopenhagen; ela remexeu entre os muitos convites de festas que recebia, á procura de seu acessório indispensável: o pom-pom vermelho de líder de torcida; ela fechou o armário mas não sem antes dar uma olhadinha em uma foto em partícular entre as milhares que cobriam o interior do seu armário: um par de olhos verdes a encaravam: Vitor!
   - Qual a primeira aula hoje?
   Subiram as escadas em direção ao ginásio, tagarelando sobre qualquer coisa. Teka não se arriscou a trazer o assunto de mais cedo a tona, com medo de que as fofoqueiras de plantão da escola pudessem ouvi-la. Entraram no vestiário, a última porta á esquerda do corredor, e foram trocar suas roupas de marca pelos uniformes de educação física. Elas saíram junto com as outras meninas, e antes que chegassem a porta do ginásio, os meninos já haviam se juntaram á elas.
   Nenhuma deles ficou surpreso ao ver que seria novamente o mesmo jogo da aula anterior. Com a final do campeonato de vôlei se aproximando, o professor Franco decidiu que era bom para seus alunos que entendessem como o jogo funcionava, e quão difícil poderia ser, para que todos dessem mais valor a performance das jogadoras do time, do que as seus shortinhos apertados. 
   - Bia - um grito veio do meio da quadra - dá pra senhorita terminar de roer as unhas depois e prestar atenção no jogo? Olha pra BOLA! – os olhares de todo o ginásio acompanharam a dona da voz, que agora gesticulava os braços desenhando uma bola no ar.
   - Teka, pega leve!
   - Pega leve o escambau! Se ela quer fazer as unhas, que vá á uma manicure, e não fica fazendo isso durante o jogo. – e virando-se para Rê – Eu vou bater nessa menina. - sibilou entre os dentes.
   Rê apenas riu.
   Passadas uma hora e meia de tortura e mais gritos histéricos de Teka com Bia, elas finalmente conseguiram arrastar Teka de volta ao vestiário ainda bufando de raiva.
   - Juro, tem uma hora que não tem mais graça, sabia?! – reclamava Man com o rosto muito vermelho do esforço, enquanto a queridinha do vôlei ria e nem descabelada estava. – Como você consegue treinar todos os dias, trabalhar, estudar para as provas e ainda ter ânimo para sair? Você não descansa não?
   - Quando eu morrer eu descanso.
   - Não esquenta não Man, pelo menos você sabe que “ agora “ não se escreve com h e separado!
   - Ué, uma pessoa não pode se confundir? – Jô ia tirando a roupa e se encaminhando para o chuveiro - Como se nenhuma de vocês tivesse se confundido com uma palavra. - ela disse como se isso fosse fazer tal coisa desaparecer.
   - Não com uma coisa dessas! – soltou Rê, acompanhando a amiga ao chuveiro.             
   - Se aquela Bia não tivesse ficado lá criando raiz na quadra, nos poderíamos ter ganho o jogo.
   - Ta, ta, ta, Teka... Relaxa e vamos tomar uma ducha de água fria antes da aula. Só por precaução – Jô já tinha pego a amiga pela mão e a puxava para dentro do chuveiro.
   O banho não demorou muito. Passaram seus cremes corporais, arrumaram os cabelos e se vestiram em um tempo record de 45 minutos.
   - Ei, - disse Rê pegando o fichário que Teka ia esquecendo enquanto se dirigia para a porta – onde é que você conseguiu o trabalho de História?
   - Pedi com jeitinho e o Gabriel fez pra mim.
   - É... Eu sei muito bem que jeitinho é esse. Você não presta.
   Teka deu uma piscadinha.

   Na hora do almoço, T finalmente conseguiu dizer quem foi que ela havia encontrado na balada. Pegaram suas bandejas e como de costume sentaram-se na mesa bem ao centro do refeitório. Mal conseguiram se acomodar, e T já despejou:
   - O Dudu, encontrei o Dudu!  Meninas, ele estava um gato com aquela camisa pólo! E que pegada que ele tem, vocês não imag...
   - Pára tudo! T, que história é essa? E o Deco? Você saiu com ele na semana passada? Você enlouqueceu? Os dois estudam aqui, isso não pode dar certo! NÃO PODE! Você tem que se decidir! Assim não dá, não é justo. Você tem que acabar com isso logo e definitivamente! – Sem perceber, R já estava de pé, com uma das mãos apoiada sobre a mesa e a outra apontada para o rosto de T. Dando-se conta de seu ato, olhou para os lados, se sentou e começou a comer um chocolate imediatamente, em um gesto de tentar se conter. T parecia que iria lançar chamas dos olhos.
   - Bom, realmente se você continuar gritando desse jeito eles vão acabar descobrindo. – Respirou e acalmando-se, continuou – E outra coisa, não posso me decidir ainda, gosto dos dois!
   - Como você gosta dos dois? Você gosta...
   - Gostando, ué?! – T não conseguia encontrar uma maneira de explicar para as amigas o fato de gostar de dois meninos ao mesmo tempo. Aliás, nem ela mesma entendia, porque nunca gostara de ninguém. Lógico que gostou de alguns caras, mas era diferente. Antes deles, ela só se interessava até conseguir beija-los, depois perdia a graça. Mas agora, vez ou outra, se pegava pensando nos dois. Será que isso é normal, pensava ela. Mas antes que conseguisse dizer mais alguma coisa sobre o assunto, ela foi interrompida por Rafa, que se sentou á mesa ao lado de A e começou a comer. As meninas, exceto A, se entreolharam pela segunda vez no dia pelo mesmo motivo. T  fez uma cara enjoada do tipo “ ele não tem amigos? “, e continuou a comer.
   Ao final do dia, se separaram. J tinha reunião com seu treinador; T, ensaio do teatro; A tinha que terminar a edição da semana do jornal; e R tinha que ir resolver o novo modelo dos uniformes das líderes para que ficassem prontos antes do último jogo da temporada.
   - Vamos no cinema depois da aula? A gente aproveita e deixa a Jô no shopping. Que horas você entra?
   - Ás cinco!
   - Combinado. Quatro e meia aqui fora. – disse R.
   - Tchau!
   - Tchau amigas!
   J e A subiram as escadas. Mal tinham se despedido, e o celular de T apitou. Mensagem.
   - Um dos dois? – perguntou R acompanhando a amiga até metade do caminho, enquanto ela estava concentrada respondendo a mensagem. Mas pelo sorrisinho que dera, R teve a certeza de que não era.

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